Saturday, August 31, 2002

"O INFERNO SÃO OS OUTROS"

Título dramático demais para esse texto, que antes de mais nada é uma resposta parcial a um recado que recebi de Liz comentando que eu me preocupo demais com o que os outros pensam, e que com isso as minhas ações e alegrias podem ser portas a perder.
Eu concordo plenamente com tudo isso. O único ponto divergente é o motivo causador de todos esses sentimetnos conflitantes. Para mim, a opinião dos outros realmente não importa. É a minha tristeza que me faz degenerar.

Wednesday, August 28, 2002

"Onde fica o botão para desligar? (risadas)".
Foi o comentário que ganhei no final da aula de inglês, enquanto me perdia na explicação rápida de Cyrano de Bergerac. Eu estava feliz... empolgado. As palavras fluíam de minha boca com uma velocidade deliciosa... Era um momento só meu, e um dos poucos instantes realmente prazeirosos que eu tenho na minha vida: Sentir outra língua escapar de minha boca rapidamente. Era, porque o comentário e as risadas fizeram-no desabar como um castelo de cartas, e eu vi quão ridículo sou.
As risadas se prolongaram... o professor entrou na dança, e eu ali, parado... sem saber onde esconder o rosto.... Sem saber onde esconder toda minha conciência. Por um instante tive vontade de fechar os olhos e me imaginar voando... Deixando a estratosfera em uma velocidade absurda... Perdido no silêncio vazio do espaço escuro, com a Terra atrás de mim, desaparecendo como uma bolha azul que corre rumo à superfície...
Mas não... eu estava em pé na soleira da porta da classe, com todos rindo de mim. Tenho certeza que quando pensar nesses instantes daqui a algum tempo vou me dizer que eles é que eram uns pentelhos... Que podiam ter pedido para que eu contasse minha história outro dia... Mas a verdade é que ninguém além de mim estava interessado no que eu tinha para contar... E eu realmente falo demais.
Hoje meu dia foi uma perda, que se resmiu inteira neste último momento. Não tenho como me sentir mais ridículo do que agora.... Nem mais abandonado de tudo... Eu sou uma piada de mau gosto, e minha vida, as pessoas... todos estão aí como o Cavaleiro do Espelho na ópera de Don Quichote, com o único objetivo de esperar sorrateiramente o momento em que nossos devaneios estão voando mais alto para nos mostrar a dura e fria realidade, que transforma em poeira de nada os corcéis orgulhosos que montamos em sonhos e desfaz nossas armaduras reluzentes, deixando-nos nús como vermes em meio à multidão que se rompe em risadas.
O "botão de desligar" é fácil de achar... As risadas e zombarias com certeza vão acioná-lo, calando a voz impertinente.
Agora sei que morrerei sufocado em meus próprios discursos, esmagado pelo peso das palavras que nunca direi, pois ninguém as quer ouvir.
Primeiro Comentário

Hoje eu recebi o primeiro comentário sobre essa interminável pilha de inutilidades... Darlene, valeu pela participação! (vc realmente achou que eu ia colocar seu nome verdadeiro aqui?).
Anyway, ela falou coisas interessantes : "Acho q a visão q vc tem hoje das coisas é típica dos nossos 20 e poucos, tanta energia em se opor sobre o que é standard na sociedade".
Pois é... Eu queria poder dizer que ela está errada... Mas Darlene acertou em cheio. Minha fantasia-necessidade de acredityar que existe algo de especial em mim vai embora cada vez mais, o que é bom.... o que me leva sempre mais perto da noção real das coisas. Talvez um dia eu não somente aceite isso, como tenha no mais profundo de mim a noção de "não ser especial", e sabendo não ter nada demais, não esperando ter nada de mais eu possa tornar-me diferente do resto do mundo.
No entanto não é o ser diferente que me angustia. Ser diferente dos demais não é uma prioridade. Os outros não são uma prioridade. O que me persegue na verdade é a angústia de ver minha vida me escapando apesar de mim. Em uma pobre alegoria da cachaça, poderia dizer que o sumo das coisas boas se perde nas engrenagens de minha vida traçada, produtiva e respeitável, deixando-me apenas com um bagaço esmagado e disforme, triste estemunha do que um dia já foi vivo no meu coração.
Maturidade, "quilometragem de vida" como ela tão bem falou, é outro ponto que me preocupa. Qual o papel disso na nossa rebeldia? Devemos enxergar nossa vontade de protestar (nossa vontade típica dos 20 anos) como algo passageiro? Não duvido que sim. Quando somos jovens, reclamamos de tanto sem realmente ter tanto para reclamar... Ou temos? Quantas pessaos podem se olhar no espelho e repetir para si mesmas "Ok... Estou feliz comigo e com minha vida...."?
Assim, será o amadurecimento tão procurado por aqueles que querem desesperadamente poder se considerar "mais adultos" algo que se deva realmente querer? Não acredito que amadurecer seja uma fronteira linear que cruzamos em um certo ponto da vida. Podemos amadurecer em diferentes velocidades, sob difirentes pontos de vista... Mas eu temo que dentro do amadurecimento como é visto no mundo de hoje esteja camuflada a semente do conformismo... E a única maneira de evitar esta apatia diante das condições implacáveis da vida é radicalizar... E buscar o pequeno suspiro de heróis de romance que existe dentro de nós para trazê-lo à vida. Sei que esta idéia parece ridícula, digna de um garoto no começo da adolescência... Mas é esta a grande angústia furiosa que devorou Cyrano, certo?
Então é tudo uma questão de escolha.... Bodemos brilhar muito, e apagar rápido... ou sermos uma chama duradoura e confiável que se estende ao longo dos anos.
Honestamente, eu escolho ser o escuro que envolve as duas.

Darlene, para te agradever pela mensagem, e por uma preferência sua:

"Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
"


Fernando Pessoa

Monday, August 26, 2002

O mistério que há nas coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas penso no que os
[homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco em uma pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus eentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significados: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

Fernando Pessoa


Esta vai para todos os intelectuais metidos a besta que, entre um feng-shui e outro, babam em cima de todos os livros das prateleiras de lançamentos das livrarias... E também para todos aqueles que acreditam muito mais no nome do autor do que na história...
Kafka nunca me disse nada que acrescentasse algo à minha vida.... mais do que isso, acho ele um pé no saco como escritor.
Pessoa é um poeta... E sem dizer quase nada, ele já disse tudo.

Sunday, August 25, 2002

As Pessoas Quânticas

Escrever este texto não será fácil... Principalmente porque para isso terei que explicar o pouco que entendi da teoria quântica. Felizmente, essas idéias malucas elaboradas por um grupo de físicos desocupados é tão bizarra que nem mesmo eles conseguem entender como funciona. Assim, vamos lá. Ao menos minha ignorância será aquela de todos. Esta é a grande vantagem da física quântica: Você não precisa ter vergonha de dizer que não entende.
A teoria em si tem um conceito simples, porém não muito inteligível para nós, mortais. Ela afirma que alguns objetos (quando foi escrita usaram elétrons) possuem basicamente dois tipos de comportamento: o de uma onda e o que uma partícula. Se os observamos isolados dos demais, eles comportar-se-ão como partículas. Quando eles são colocados em uma grande quantidade, vemos que existe uma “perda de individualidade”, o que faz com que em grupo as partículas adquiram um comportamento de ondas, com toda aquela história de interações construtivas e destrutivas, que gera um padrão no aparentemente caótico comportamento de um corpo isolado.
O mesmo vai para as pessoas.
Quando falamos de nós mesmos, gostamos de nos considerar únicos. Pensamos que em algum ponto somos originais de uma maneira que nunca antes ninguém foi, ou pensou ser. Na nossa imensa arrogância, nos vemos como indivíduos especiais à nossa própria maneira.
A realidade nos mostra outra coisa... Nela, vemos um mundo repleto de pessoas fascinadas pelo estereótipo do perfeito: Somos halterofilistas intelectuais, românticos que lidam mais com a carne do que com o espírito... Somos filósofos vazios que não fazem nada além de repetir aquilo que lêem de outros que vieram antes.
Quando olhamos de longe, não é difícil ver aparecerem os padrões. Assim, as pessoas quânticas buscam a solidão para encontrar a serenidade, mas aglomeram-se nas entradas das danceterias. Elas querem ser românticas e sensíveis, mas correm atrás do sexo fácil em cada evento... Cada momento em que a oportunidade se anuncia. Eles querem a paz, mas isto é apenas o pretexto para estar sempre em guerra.
Aqueles que estiverem lendo essas linhas devem estar dizendo “Mas eu não sou assim... Conheço muita gente que não é assim... Você não pode generalizar...”
Não posso? Tem certeza? Talvez existam umas pouquíssimas exceções às minhas generalizações, mas elas estão quase sempre certes para todos, inclusive para mim. Sim... Eu também sou parte da mediocridade do mundo. Assim como o comunista estereotipado com sua barba, bandeiras vermelhas e todos os acessórios que compõem sua imagem: sandálias de couro, ponchos, etc. As modas, tendências e manias todas refletem plenamente esse nosso comportamento condicionado. (Condicionado sim... Desde quando toda a mulher aceita pagar um dinheiro muitas vezes absurdo por uma calça jeans que foi desbastada no esmeril?
Nosso comportamento é exatamente o de uma partícula segundo a teoria quântica: Isolados, parecemos indivíduos... Diferenciados, beneficiando de nossos próprios movimentos sem referência alguma ao exterior. No entanto estamos mais do que desejosos de desistir dessa desconfortável individualidade quando entramos no fluxo louco de nossa vida coletiva.