Primeiro Comentário
Hoje eu recebi o primeiro comentário sobre essa interminável pilha de inutilidades... Darlene, valeu pela participação! (vc realmente achou que eu ia colocar seu nome verdadeiro aqui?).
Anyway, ela falou coisas interessantes : "Acho q a visão q vc tem hoje das coisas é típica dos nossos 20 e poucos, tanta energia em se opor sobre o que é standard na sociedade".
Pois é... Eu queria poder dizer que ela está errada... Mas Darlene acertou em cheio. Minha fantasia-necessidade de acredityar que existe algo de especial em mim vai embora cada vez mais, o que é bom.... o que me leva sempre mais perto da noção real das coisas. Talvez um dia eu não somente aceite isso, como tenha no mais profundo de mim a noção de "não ser especial", e sabendo não ter nada demais, não esperando ter nada de mais eu possa tornar-me diferente do resto do mundo.
No entanto não é o ser diferente que me angustia. Ser diferente dos demais não é uma prioridade. Os outros não são uma prioridade. O que me persegue na verdade é a angústia de ver minha vida me escapando apesar de mim. Em uma pobre alegoria da cachaça, poderia dizer que o sumo das coisas boas se perde nas engrenagens de minha vida traçada, produtiva e respeitável, deixando-me apenas com um bagaço esmagado e disforme, triste estemunha do que um dia já foi vivo no meu coração.
Maturidade, "quilometragem de vida" como ela tão bem falou, é outro ponto que me preocupa. Qual o papel disso na nossa rebeldia? Devemos enxergar nossa vontade de protestar (nossa vontade típica dos 20 anos) como algo passageiro? Não duvido que sim. Quando somos jovens, reclamamos de tanto sem realmente ter tanto para reclamar... Ou temos? Quantas pessaos podem se olhar no espelho e repetir para si mesmas "Ok... Estou feliz comigo e com minha vida...."?
Assim, será o amadurecimento tão procurado por aqueles que querem desesperadamente poder se considerar "mais adultos" algo que se deva realmente querer? Não acredito que amadurecer seja uma fronteira linear que cruzamos em um certo ponto da vida. Podemos amadurecer em diferentes velocidades, sob difirentes pontos de vista... Mas eu temo que dentro do amadurecimento como é visto no mundo de hoje esteja camuflada a semente do conformismo... E a única maneira de evitar esta apatia diante das condições implacáveis da vida é radicalizar... E buscar o pequeno suspiro de heróis de romance que existe dentro de nós para trazê-lo à vida. Sei que esta idéia parece ridícula, digna de um garoto no começo da adolescência... Mas é esta a grande angústia furiosa que devorou Cyrano, certo?
Então é tudo uma questão de escolha.... Bodemos brilhar muito, e apagar rápido... ou sermos uma chama duradoura e confiável que se estende ao longo dos anos.
Honestamente, eu escolho ser o escuro que envolve as duas.
Darlene, para te agradever pela mensagem, e por uma preferência sua:
"Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração. "
Fernando Pessoa